Cidades eficientes ou sociáveis?

Esta é uma época de cidades. Um momento em que a maioria das pessoas no mundo vive em cidades de um tamanho nunca antes visto na história da humanidade. Esta nova cidade, de 15 milhões de pessoas ou mais, como Xangai, São Paulo, Mumbai, ou Cidade do México, transformou a política, a economia, a infraestrutura e a cultura da existência cotidiana. No entanto, como no passado, os cidadãos urbanos têm agora dois desejos básicos: eles querem cidades que sejam eficientes, e também querem cidades cheias de vida.

A necessidade de eficiência constantemente entra em conflito com o desejo de sociabilidade. A busca pela eficiência visa o equilíbrio e a harmonia. A sociabilidade nas cidades envolve misturas complexas de pessoas com interesses divergentes; estas pessoas têm que negociar seus relacionamentos a cada dia, e os resultados são complicados.

A distinção entre eficiente e sociável é particularmente grande para uma massa de pessoas em relação às quais os urbanistas parecem indiferentes. Esta classe não é pobre nem burguesa, são as classes moyennes, como os sociólogos franceses as chamam, ou a lower middle class, em termos ingleses: pequenos comerciantes e vendedores, modestos funcionários e burocratas, trabalhadores manuais qualificados. Estas são pessoas para quem a eficiência significa um ambiente mais seguro e mais saudável do que aquele dos muito pobres. Mas eles estão a um passo de experimentar uma qualidade de vida melhor; o espectro da pobreza, que eles talvez tenham acabado de afastar, ainda os assusta. Esta é a vida evocada por Louis-Ferdinand Céline no romance Viagem ao fim da noite, ou pelo filme Os incompreendidos de Truffaut. A experiência de um cotidiano eficiente e viável é frágil. A consciência de classe coloca essas duas palavras, eficiente e frágil, juntas.

A sociabilidade nascida desta fragilidade é frequentemente hostil àqueles que estão acima ou abaixo socialmente, e por fim esta hostilidade retorna ao emissor. Os sociólogos rotulam este tipo de postura como ressentiment (ressentimento), uma combinação de mágoa e afastamento que possui um toque político de direita; inúmeros estudos mostram que o ressentiment instiga os preconceitos raciais e a hostilidade em relação aos imigrantes. O ressentiment não é urbano. E, desta forma, literalmente, os grupos motivados por esta paixão têm, como Michel de Certeau documentou, praticado uma forma local de intensa exclusão daqueles que estão socialmente abaixo destes grupos. Mas eu estou convencido de que isto não é inevitável para as pessoas recém-saídas da pobreza ou que vivem apenas um pouco acima desta. As condições físicas nas quais as classes médias  vivem podem orientar as pessoas de uma maneira diferente; mais positiva, mais integrada.

Como visitante do Rio de Janeiro, fiquei impressionado pela forma como grande parte da cidade pertence às classes moyennes. Particularmente devido ao crescimento desta classe nos últimos anos, as pessoas da classe pobre subiram apenas um ou dois degraus quando – e se – saíram da pobreza, como foi o caso em Nova York, há um século, em bairros como o Queens e o Bronx, ou hoje na expansão de Xangai em direção ao noroeste. Dado o tecido urbano peculiar do Rio de Janeiro, um arquipélago de diferentes comunidades socioeconômicas, a questão da integração é particularmente difícil em termos de planejamento urbano. Eu não sou nenhum expert em Rio de Janeiro, mas gostaria de oferecer algumas ideias sobre como uma abordagem mais integrada poderia juntar eficiência e sociabilidade.

 

A condição-limite

A integração acontece nos limites entre comunidades. Os urbanistas, em geral, não têm sido muito bons em criar limites do tipo “abertos”; em vez disso, o grande surto de crescimento urbano das últimas décadas fortaleceu a segregação. Isto é verdade não apenas em relação aos condomínios fechados, mas também em relação aos lugares de trabalho ou consumo – a área dos escritórios, o shopping center – que são de caráter monofuncional. A segregação de funções se tornou o parâmetro para medir a eficiência do urbanista.

Os limites podem vir em duas formas: divisa e fronteira. Os rígidos controles de movimento entre os países são destinados a impor a condição de divisa, enquanto que o Acordo de Schengen na Europa, por exemplo, destina-se a criar fronteiras mais abertas entre seus Estados membros. A nível urbano, as estradas criam divisas entre as comunidades, enquanto vias arteriais criam fronteiras mais abertas. Uma distinção mais provocadora é a diferença entre uma parede celular e uma membrana celular. Uma parede celular serve principalmente para conservar os ingredientes vitais dentro da célula, enquanto que uma membrana funciona serve para trocar ingredientes entre o lado de dentro e o lado de fora da célula. Mas a membrana não é uma porta aberta; este limite é tanto poroso quanto resistente, ou seja, admite tanto matérias novas no interior da célula quanto resiste à perda de sua própria substância.

Porosidade e resistência combinadas dizem algo a respeito do conceito de integração, um conceito muito importante no planejamento urbano. Constantemente urbanistas bem-intencionados confundem integração com eliminação, uma clareira no espaço urbano, destruindo os vestígios do passado, sem deixar marcas físicas no presente. Esta é a história de muitas das renovações urbanas no século XX em cidades norte-americanas e em cidades chinesas no século XXI. A eliminação não estimula a integração, pelo contrário; o resultado, tanto em Xangai quanto em Chicago, deixou as pessoas, particularmente aquelas das classes moyennes, sentindo-se expostas e vulneráveis.

Uma forma alternativa de criar um limite vivo está incorporada no trabalho que os urbanistas fizeram na reconstrução de Beirute após sua longa guerra civil, que terminou nos anos 1990. A atual “linha verde” da cidade era uma zona de conflito, onde cristãos e muçulmanos lutaram por 14 anos; no final da guerra, esta zona havia se tornado um local repleto de árvores e ervas daninhas. Os urbanistas utilizaram este ressurgimento natural para fazer um mercado à sombra, que se estendia ao longo da ex-linha de combate; os prédios de ambos os lados foram deixados para construções locais ou familiares. As estruturas do mercado eram em si construções temporárias, erguidas ou retiradas rapidamente. Pessoas que iam às compras podiam se misturar com seus antigos inimigos, mas também recuar e se retirar com facilidade. Tal trégua desconfortável exemplifica a membrana urbana, que era ao mesmo tempo porosa e resistente. É certo que este é um caso extremo, mas a lógica da membrana é uma boa lógica, e os urbanistas deveriam aplicá-la ao cenário urbano mais comum. Poderia esta lógica ser aplicada no Rio de Janeiro, por exemplo, nas relações entre as favelas e os bairros que as cercam?

 

Espaço Público Complexo

Nossas noções adquiridas de espaço público são uma razão pela qual a criação da membrana falhou. O projeto de um bom espaço urbano é um assunto infindável, com o qual tenho me preocupado durante toda a minha vida profissional. Quero me concentrar apenas em um aspecto, que diz respeito a espaços monofuncionais e multifuncionais. A princípio, uma sobreposição de funções cria o espaço público: quanto mais espessa a sobreposição de funções, mais público se torna um espaço. Para entender por que isto ocorre, nós poderíamos contrastar a ágora dos antigos atenienses à moderna Times Square, em Nova York.

A ágora, um espaço aberto de seis hectares [60.000 m2] continha todos os elementos da vida cívica ateniense, que ficava assim plenamente visível. Os antigos atenienses que visitavam seus banqueiros em uma mesa colocada na ágora podiam ver e ouvir os procedimentos de um tribunal de justiça que ocorria no mesmo espaço, separados apenas por um muro baixo; se ele quisesse, ele poderia emitir seus próprios comentários sobre o acusado enquanto contava seu dinheiro. Vários pequenos santuários e um templo revestiam a ágora, permitindo que o cidadão ateniense rezasse se o seu espírito o levasse a isso; ele podia jantar e flertar em diversos recintos privados, cujas portas se abriam diretamente para a ágora. Este espaço público não era apenas multifuncional, ele era definido ambiguamente, os limites entre as atividades sendo mais fronteiras do que divisas; o ateniense era constantemente obrigado a interpretar o que estava acontecendo na ágora.

Por outro lado a moderna Times Square, em Nova York, não exige tal esforço de interpretação. Esta tornou-se um espaço puramente turístico, o que significa que a “renovação” recente de suas construções  fez com que o centro do espaço público central de New York seja monofuncional, dedicado aos turistas servidos por baratos hotéis e restaurantes e, é claro, por teatros populares. Existem outros tipos de atividades comerciais e civis próximos à Times Square, mas estas atividades não são visíveis, ocorrendo dentro de edifícios fortemente vigiados. Poucos nativos de Nova York frequentam Times Square: esta se tornou um vazio no coração da cidade.

A receita para um espaço público vivo nas cidades é mais complicada do que pode parecer à primeira vista. Múltiplas funções geram ambiguidade. A ambiguidade requer interpretação. As interpretações são instáveis a nível temporal. Esta receita exige muitos esclarecimentos. Eu simplesmente quero enfatizar que um espaço público vivo não é eficiente se pensarmos em eficiência como um estado estacionário.

 

Qualidade de Vida

Abordei aqui uma série de princípios de integração urbana, falando sobre limites e espaço público. Estes princípios estimulam o intercâmbio nas fronteiras entre territórios e estimulam as pessoas a interpretar e experienciar a complexidade. Estes têm uma aplicação específica na estrutura da vida das pessoas comuns – ou seja, as pessoas que não são nem ricas, nem pobres. São princípios que asseguram a qualidade de vida ao fornecer regras de participação ativa; fornecem orientações sociáveis ​​e positivas para a cidade para aquelas pessoas que podem sentir aquele tipo de fragilidade ligado às classes que resulta em ressentiment.