Esclarecendo a Psicologia das Cidades

O Rio de Janeiro é uma cidade de camadas múltiplas e contraditórias, ao mesmo tempo exposta e escondida por sua beleza e sua topografia complexa. As distâncias e as sobreposições entre seus bairros e os moradores destes são grandes e operam em muitos níveis, todos imediatamente perceptíveis aos sentidos daqueles que estão na cidade. Ao andar pelo Rio, perto do Oceano Atlântico, ou mais além, por suas florestas, montanhas, pessoas e prédios, é difícil focar o olhar em um único aspecto, pois a principal característica da cidade é a justaposição e a mistura, um carnaval vibrante de geografia e humanidade, um espaço que é tanto urbano quanto psicossocial, constituído de muitas vidas, emoções, representações e padrões comportamentais.

Em nenhum lugar isso é mais evidente do que no contraste entre as favelas e as áreas pavimentadas ricas da cidade, descritas na linguagem cotidiana dos cariocas como a dicotomia morro / asfalto, um significante que todos compreendem e usam para navegar na complexidade de divisões e linhas de segregação que caracterizam o Rio. A separação morro / asfalto está profundamente ligada ao processo de urbanização da cidade do Rio de Janeiro, que se mantinha afastada e ao mesmo tempo se tornava cada vez mais dependente das comunidades das favelas que havia marginalizado.

Oficialmente chamadas de aglomerados subnormais urbanos, as favelas do Rio são ecossistemas de grande complexidade, nos quais uma rica e diversificada sociabilidade coexiste com uma falta crônica de serviços do Estado e um forte controle social imposto pelos chefes do tráfico e pela violência policial. Desde os anos 1980 os cartéis de drogas vêm ganhando o controle sobre os territórios das favelas, dando início a uma guerra não declarada e subterrânea com a polícia. No meio deste confronto, os moradores da favela se tornaram um alvo para a polícia e ficaram superexpostos às rotas de socialização estabelecidas pelo caráter institucional e empresarial do narcotráfico.

À medida que a população das favelas foi crescendo, o aumento da violência e os homicídios – combinados com a falta crônica de serviços e privações socioeconômicas – configurou um ambiente de intensa exclusão social. Apesar de serem parte integrante da economia e da vida sociocultural da cidade, as comunidades das favelas foram sendo empurradas em direção à marginalidade; a sociabilidade e as múltiplas formas de vida destas populações foram sendo escondidas por barreiras geográficas, sociais, econômicas, simbólicas e comportamentais.

Esta preponderância de fronteiras urbanas marcadas é um aspecto central do Rio de Janeiro e um dos principais componentes da vida nas favelas. Os moradores das favelas amam suas comunidades, bem como amam a cidade, mas eles têm plena consciência das fronteiras e da separação. O crime, a violência e a marginalização são equiparados à identidade dos moradores das favelas por aqueles que estão fora deste ambiente. Os moradores das comunidades regularmente sofrem discriminação quando atravessam as fronteiras da favela em direção à cidade. As representações negativas e o estigma gerado no asfalto ferem social e psicologicamente os moradores das favelas ao impedir o acesso ao trabalho e à renda e também ao afetar a identidade e a autoestima destes. As palavras dentro e fora são fortes significantes, utilizados para expressar tanto as diferenças entre os mundos urbanos quanto para aumentar as fronteiras que os separam. Os controles de fronteiras na cidade são subjetivamente internalizados: os moradores compreendem que há perigo em entrar em favelas diferentes, e sentem a dor do preconceito e da discriminação quando vão para outras áreas da cidade.

Estes problemas podem ser ilustrados pelas cartografias psicossociais de quatro comunidades do Rio de Janeiro: Cantagalo, Cidade de Deus, Madureira e Vigário Geral, cada uma destas localizada em uma área diferente da cidade. Cantagalo e Vigário Geral se encaixam na definição aceita de favelas, enquanto que a Cidade de Deus foi construída como uma área planejada para realocar moradores de favelas deslocadas do Centro da cidade durante a década de 1960. Madureira é um bairro formal, cercado por favelas. Em suas semelhanças e diferenças, cada uma dessas quatro comunidades evidencia como as fronteiras geográficas se cruzam com as estruturas sociais e psicológicas para conectar, dentro da cidade, território, identidade da comunidade e uma noção do “eu”.

Como em qualquer mapa, as cartografias psicossociais são estabelecidas pelas fronteiras. Estas fronteiras podem ser mais ou menos porosas, dependendo de uma combinação de elementos psicológicos e geográficos, que estabelecem as relações entre as favelas e a cidade. Estes elementos incluem: a variedade e a qualidade das instituições sociais presentes em uma comunidade; a localização desta comunidade em relação à cidade que a envolve; a presença ou ausência de conectores urbanos; a experiência de lazer de seus habitantes; e as representações sociais da cidade como um todo em relação à comunidade.

O Cantagalo está localizado entre Ipanema e Copacabana, no coração da zona sul do Rio e em meio à sua bela paisagem natural. Esta comunidade se beneficia dos serviços do Estado e das instalações comerciais desses bairros formais, apesar da ausência destes serviços e instalações na própria favela. A comunidade está ligada a Ipanema por um elevador e uma estrada pavimentada, o que facilita o acesso – mais ainda desde a expulsão do tráfico de drogas e da introdução da UPP [Unidade de Polícia Pacificadora]. As representações sociais da área são mistas, incluindo dimensões positivas e negativas. Há um fluxo em ambos os sentidos em termos de lazer, serviços e contato intergrupal, tornando as fronteiras do Cantagalo altamente porosas.

Madureira está no centro da zona norte do Rio, aberta à cidade, embora a distância dê um pouco mais de densidade às suas fronteiras. Existem várias instituições em Madureira, e o bairro desfruta de instalações próprias e de uma vibrante cultura popular. Situa-se no cruzamento entre as diferentes culturas do Rio e oferece múltiplas referências para a sociabilidade de seus moradores. Madureira está associada à pobreza, mas também ao convívio e a importantes tradições culturais da cidade. Seu grande mercado é uma forte referência urbana, e suas escolas de samba, tais como a Portela, são exemplos de sua rica influência na vida do Rio de Janeiro. Suas fronteiras apresentam uma porosidade de média a alta; estas fronteiras são muito amplas e não estão controladas pelo tráfico de drogas.

A Cidade de Deus está localizada remotamente, na zona oeste do Rio, perto de florestas, da Barra da Tijuca, das praias e de instalações em geral que se encontram neste bairro. As referências para a sociabilidade estão focadas no tráfico de drogas e nas igrejas evangélicas, embora as UPPs estejam introduzindo um novo, mesmo que inquieto, relacionamento com o Estado. Há liberdade de ir e vir, mas o lazer está concentrado na própria comunidade, em grande parte por medo de discriminação. As representações sociais dominantes da Cidade de Deus continuam a ligar a comunidade ao tráfico de drogas, à pobreza e à violência. Suas fronteiras mostram baixa porosidade: estas não são mais controladas pelo narcotráfico, mas a segregação internalizada mantém os horizontes da comunidade principalmente dentro de seu próprio território.

Em Vigário Geral, a escassez de instituições sociais e a distância da cidade reduzem as referências para a sociabilidade de seus moradores – estas referências estão polarizadas entre o AfroReggae, uma importante ONG originada na comunidade, e o tráfico de drogas. O tráfico de drogas é o organizador central da vida da comunidade, e, juntamente com as igrejas evangélicas, o AfroReggae, e a esporádica presença da polícia, compreendem as instituições sociais da favela. Fogo cruzado e balas perdidas são parte da vida cotidiana; a área está fechada e rigidamente controlada, e a circulação é difícil. Vigário Geral é fortemente associado a guerras entre facções do tráfico de drogas e à violência da polícia. O território da comunidade engloba o lazer e os horizontes disponíveis para seus residentes.

Os níveis de porosidade nas fronteiras da comunidade moldam o contexto que é oferecido para caminhos de socialização dentro das favelas, bem como moldam a natureza da relação entre as comunidades e a cidade que as envolve. Os níveis de porosidade das fronteiras se correlacionam com a extensão das redes sociais e com cruzamentos potenciais que estão disponíveis na vida cotidiana dos moradores das favelas. Quanto mais amplas as redes sociais e mais permeáveis as fronteiras, mais a experiência do “eu” é ampliada. Quanto mais densas as fronteiras, menores as chances de expansão das redes sociais e de entrada na cidade que envolve a comunidade, enquanto que se ampliam tanto a necessidade quanto a importância atribuídas às poucas instituições – boas ou más – que atuam na comunidade.

A porosidade das fronteiras entre as comunidades periféricas e a esfera pública mais ampla da cidade é um fator importante para definir os rumos da socialização e da experiência individual e coletiva da cidade. Ações para a flexibilidade das fronteiras urbanas são fundamentais para a ampliação da noção do “eu”, para a regeneração de territórios de exclusão e para devolver aos moradores da favela o direito à cidade. Manter as fronteiras abertas contribui para a transformação das identidades e para o desenvolvimento da cidadania. Isto conecta uma sociedade dividida e evita a formação de guetos que isolam e impedem a energia embutida nos encontros sociais e culturais da cidade contemporânea. O Viaduto de Madureira e o Centro Cultural Waly Salomão, em Vigário Geral, são exemplos destes processos: eles funcionam como lugares de encontro, aprendizado, desenvolvimento, abrangência psicossocial e de convívio, trazendo a cidade para a favela e a favela para a cidade. Ao regenerar a esfera pública e o ambiente construído das comunidades populares, estes processos também regeneram o Rio de Janeiro, estabelecem uma ponte entre os mundos sociais até então separados e dão um passo adiante em direção à cidade comunicativa.

A experiência do Rio corrobora a necessidade de descentralizar o planejamento urbano e de consolidar as perspectivas oferecidas pela cidade mista do século XXI. “Limpar” a cidade, removendo favelas e populações indesejadas, não é uma solução urbana sustentável, e não somente porque isto viola o direito fundamental à cidade. O estudo da vida na favela mostra que, apesar da exclusão social, existe resiliência; existe uma cultura poderosa e uma orgulhosa inteligência coletiva vivendo nas margens da cidade. Reconhecer a favela e as potencialidades de seu povo, sua cultura e sua economia requer uma política urbana comprometida com a integração social, sem a qual o desenvolvimento do Rio de Janeiro será sempre parcial.