A estática e a cinética

As cidades do sul da Ásia são caracterizadas por contradições físicas e visuais que se aglutinam em uma paisagem de incrível pluralismo. Historicamente, e em particular durante o período da colonização britânica, os diferentes universos que atuam dentro destas cidades – que podem ser econômicos, sociais ou culturais – ocuparam diferentes espaços e operaram sob diferentes regras. O objetivo da separação destes mundos era maximizar o controle e minimizar o conflito entre estes mundos, muitas vezes opostos.1 No entanto, hoje esses mundos compartilham o mesmo espaço, mas os compreendem e os utilizam de forma diferente.2 As ondas maciças de migração rural durante a segunda metade da década de 1900 desencadearam a convergência destas ondas em uma entidade singular, mas multifacetada. Isto, combinado com a insuficiência de terras urbanas e a não-criação de novos centros urbanos, resultou em altíssimas densidades nas cidades existentes. Com o surgimento de uma economia pós-industrial, baseada em serviços, o entrelaçamento desses mundos dentro do mesmo espaço é agora ainda maior.3

Neste cenário pós-industrial, as cidades da Índia tornaram-se locais cruciais para negociações entre as culturas da elite e as menos favorecidas. As novas relações entre as classes sociais em uma economia pós-industrial são bastante diferentes daquelas que existiam na economia estatal.4 A fragmentação da economia em setores de serviços e de produção resultou espacialmente em um urbanismo novo, com características de bazar, que tem se mostrado presente por toda a paisagem urbana.5 Este é um urbanismo criado por aqueles que estão fora dos domínios da elite da modernidade formal do Estado. Esta é uma modernidade “pirata”, que precisa se esgueirar por baixo das leis da cidade simplesmente para sobreviver, sem qualquer tentativa consciente de construir uma contracultura.6 Com o recuo do Estado nos anos 1980 e 1990 (o que ocorreu em diferentes medidas no sul da Ásia), o espaço do “cotidiano” é o lugar onde as lutas econômicas e culturais são articuladas. Estes espaços comuns foram em grande parte excluídos dos discursos culturais sobre globalização, que estão centrados no domínio da elite sobre a produção nas cidades.7

Hoje em dia as cidades indianas se constituem de dois componentes que ocupam o mesmo espaço físico. O primeiro é a Cidade Estática. Construída de materiais mais permanentes, como concreto, aço e tijolo, a Cidade Estática forma uma entidade bidimensional nos mapas convencionais da cidade. Sua presença é em forma de monumento. O segundo é a Cidade Cinética. Incompreensível como uma entidade bidimensional, esta é uma cidade em movimento – uma construção tridimensional de desenvolvimento incremental. A Cidade Cinética é de natureza temporária e, muitas vezes, construída com material reciclado: folhas de plástico, sucata de metal, lona e resíduos de madeira. Este tipo de cidade constantemente se modifica e se reinventa. As unidades de construção da Cidade Cinética não são peças de arquitetura, mas espaços que possuem valores associativos e que apoiam as vidas e o sustento de seus moradores. Os padrões de ocupação determinam sua forma e percepção. É um urbanismo que tem a sua lógica “local”, específica. Não é necessariamente a cidade dos pobres, como a maioria das imagens sugere; e sim é uma articulação e ocupação temporal do espaço, que não só cria uma sensibilidade mais rica de ocupação espacial, mas que também sugere como os limites espaciais são expandidos de forma a incluir usos não-imaginados formalmente sob condições urbanas densas.8

A Cidade Cinética apresenta uma visão envolvente que nos permite, potencialmente, compreender melhor as fronteiras indistintas do urbanismo contemporâneo e os papéis cambiantes das pessoas e dos espaços na sociedade urbana. A crescente concentração de fluxos globais – de dinheiro e produtos – agravou as desigualdades e divisões espaciais das classes sociais. Neste contexto, uma arquitetura ou urbanismo de igualdade, em um mundo cada vez mais desigual economicamente, requer uma maior procura por uma diversificada gama de locais para marcar e comemorar as culturas daqueles excluídos dos espaços de riqueza e de crescimento econômico. Estes espaços não necessariamente residem na produção formal de arquitetura, mas frequentemente a desafiam. Aqui, a ideia de cidade é uma condição urbana elástica, não uma grande visão, mas um “grande ajuste”.

A Cidade Cinética pode ser vista como a imagem simbólica da condição emergente do sul asiático urbano. As procissões, os casamentos, os festivais, os vendedores ambulantes e os moradores de favelas – ou Katchi Abadis –, tudo isso cria uma paisagem urbana em constante transformação; uma cidade em eterno movimento, onde o próprio tecido físico da cidade é caracterizado pela mudança contínua. A Cidade Estática, por outro lado, dependente da arquitetura para sua representação, não é mais a única imagem através da qual a cidade é lida. Portanto, a arquitetura não é o “espetáculo” da cidade, nem chega a ser a única imagem dominante. Em contraste, festivais como Diwali, Dussera, Navrathri, Muhharam, Durga Puja, Ganesh Chathurthi e muitos outros têm surgido como espetáculos da Cidade Cinética. A presença destes na paisagem cotidiana é generalizada e domina a cultura visual popular das cidades indianas. Os festivais criam um fórum através do qual as fantasias dos menos favorecidos são articuladas e até mesmo organizadas em ações políticas.

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Qual é, então, nossa leitura cultural para a Cidade Cinética, que agora forma a maior parte de nossa realidade urbana? Se a produção ou a preservação da arquitetura ou da forma urbana deve ser informada por nossa leitura do significado cultural neste contexto dinâmico, esta necessariamente terá de incluir a noção de “construção de significado”, tanto nos debates sobre arquitetura quanto nos debates sobre conservação.9 Na verdade, uma compreensão de que o “significado cultural” evolui realmente pode esclarecer o papel do arquiteto como um defensor da mudança (versus um preservacionista que se opõe à mudança) – uma pessoa que pode se envolver tanto com a Cidade Cinética quanto com a Cidade Estática, em igualdade de condições. Assim sendo, um esvaziamento da importância simbólica da paisagem arquitetônica conduz a um aprofundamento das relações entre a arquitetura e as realidades e experiências contemporâneas. Este entendimento permite que a arquitetura e as tipologias urbanas sejam transformadas através de uma intervenção e colocadas a serviço da vida, das realidades e das aspirações emergentes contemporâneas. Aqui, a Cidade Estática envolve a Cidade Cinética e é informada e refeita pela lógica desta última.

O fenômeno dos bazares nas arcadas vitorianas na antiga área do Forte, no distrito histórico de Mumbai, é um emblema da negociação potencial entre a Cidade Estática e a Cidade Cinética. O uso original das arcadas era duplo. Em primeiro lugar, estas forneciam mediação espacial entre a construção e a rua. Em segundo lugar, as arcadas eram uma resposta perfeita ao clima de Mumbai. Estas serviam como uma zona de proteção aos pedestres, tanto para o sol forte quanto para as chuvas inclementes. Hoje, com o bazar informal ocupando a arcada, seu propósito original foi desviado. Esta relação que surgiu entre a arcada e o bazar não apenas força um confronto de usos e de grupos de interesse, mas também exige novas abordagens de preservação. Para o morador comum de Mumbai, o vendedor ambulante oferece uma ampla gama de produtos a preços consideravelmente mais baixos do que aqueles encontrados nas lojas locais. Desta forma, os bazares nas arcadas caracterizam os negócios prósperos na área do Forte. Para a elite e para os conservacionistas, o núcleo vitoriano representa o centro antigo da cidade, com seus monumentos icônicos. Na verdade, à medida que a cidade se amplia, dissipando a clareza de sua forma, estas imagens, lugares e ícones adquirem um significado ainda maior para os preservacionistas como símbolos críticos da imagem histórica da cidade. Consequentemente, o comércio ambulante é considerado ilegal pelas autoridades da cidade, que estão constantemente tentando mudar o local dos bazares.

O desafio em Mumbai é lidar com a transformação da cidade, não induzindo ou polarizando seu dualismo, mas tentando conciliar estas condições opostas como sendo simultaneamente válidas. A existência de dois mundos no mesmo espaço implica acomodar e sobrepor diferentes usos, percepções e formas físicas. As arcadas na área do Forte possuem uma capacidade rara de reinterpretação. Como uma solução arquitetônica, estas mostram uma resistência incrível, pois podem acomodar novos usos, mantendo a ilusão de sua arquitetura intacta.

Uma solução de projeto pode ser a readaptação do funcionamento das arcadas. Estas poderiam ser reestruturadas para permitir um fácil movimento dos pedestres e para acomodar os vendedores ambulantes, ao mesmo tempo. Este projeto poderia abrigar o disforme bazar, envolvido na ilusão da disciplinada arcada vitoriana. Com este tipo de abordagem, os componentes-chave da cidade teriam maior capacidade de sobreviver, porque poderiam ser mais adaptáveis às condições econômicas e sociais cambiantes. Não há soluções totais em uma paisagem urbana caracterizada tanto pela permanência quanto pela rápida transformação. Na melhor das hipóteses, a cidade poderia evoluir constantemente e inventar soluções para o presente, salvaguardando os componentes cruciais de nosso historicamente importante “equipamento urbano”. Será que os “bazares nas arcadas vitorianas” poderiam se tornar um autêntico símbolo de uma realidade emergente de adaptação temporária? Claramente as cidades Estática e Cinética vão além de suas diferenças óbvias ao estabelecer uma relação muito mais rica, tanto espacial quanto metaforicamente, do que suas manifestações físicas poderiam sugerir. Aqui, afinidade e rejeição são simultaneamente rejeitadas – em um estado de equilíbrio mantido por uma tensão aparentemente insolúvel.

A economia informal da cidade ilustra claramente a existência falida e interpenetrada das cidades Estática e Cinética. Os dabbawalas (em tradução literal, “entregadores de marmita”) são um exemplo desta relação entre o formal e o informal, a estática e a cinética. O serviço de entrega de marmitas, que conta com o sistema de trem para fazer o transporte, custa cerca de 200 rúpias (US$ 4) por mês. Um dabbawala retira uma marmita de almoço em uma residência, em qualquer lugar da cidade. Depois ele entrega a marmita no local de trabalho, na hora do almoço, e a leva novamente para a residência no final do dia. Os dabbawalas entregam centenas de milhares de marmitas todos os dias. A eficiência do sistema de trem em Mumbai, a espinha dorsal da cidade linear, permite que este complexo sistema informal funcione. Os dabbawalas estabeleceram criativamente uma rede que facilita que um sistema informal se beneficie de uma infraestrutura formal. Este sistema consiste em trocar a dabba ou marmita quatro ou cinco vezes, entre a sua coleta e o seu retorno à residência, à noite. Comumente uma marmita viaja cerca de 30 km para ir e para voltar. Estima-se que cerca de 200.000 marmitas sejam entregues na cidade por dia, envolvendo cerca de 4.500 dabbawalas. Em termos econômicos, o faturamento anual fica em cerca de 50 milhões de rúpias, ou cerca de US$ 1 milhão.10

O empreendedorismo na Cidade Cinética é um processo autônomo e oral que demonstra a capacidade de colocar o formal e o informal em uma relação simbiótica. Os dabbawalas, como vários outros serviços informais – que vão desde serviços bancários, transferência de dinheiro, serviço de mensageiro, até bazares de produtos eletrônicos –, impulsionam relacionamentos e redes comunitários, e habilmente usam a Cidade Estática e sua infraestrutura para além das fronteiras pretendidas. Estas redes criam uma sinergia que depende de integração mútua, sem a obsessão de estruturas formais. A Cidade Cinética é o lugar onde a interseção de necessidades (muitas vezes reduzida à sobrevivência) e potenciais inexplorados da infraestrutura existente dão origem a novos serviços inovadores. Os trens em Mumbai são um emblema de um espaço cinético, apoiando e mesclando o formal e o informal, penetrando nestes mundos ao mesmo tempo em que momentaneamente os transforma em uma entidade singular. Aqui, a autoconsciência da modernidade e as normas impostas pela Cidade Estática são suspensas e redundantes. A Cidade Cinética leva a sabedoria local ao mundo contemporâneo, sem medo do moderno, enquanto a Cidade Estática tende a apagar o local e a recodificá-lo em uma ordem “macro-moral” escrita.11

O urbanismo de Mumbai representa uma interseção fascinante onde a Cidade Cinética – uma paisagem em distopia, e ainda assim um símbolo de otimismo – desafia a Cidade Estática – codificada na arquitetura – para reposicionar e refazer a cidade como um todo.12 A Cidade Cinética força a Cidade Estática a voltar a se envolver nas condições atuais quando dissolve seu projeto utópico para passar a fabricar múltiplos diálogos com o seu contexto. Poderia isto se tornar a base para uma discussão racional sobre a coexistência? Seria o urbanismo emergente de Mumbai inerentemente paradoxal? Seria a coexistência das cidades Estática e Cinética – e seus particulares estados de utopia e distopia – inevitável? Pode a configuração espacial de como essa simultaneidade ocorre, ser, na realidade, formalmente imaginada? A Cidade Cinética, obviamente, não pode ser vista como uma ferramenta de projeto, mas sim como uma exigência que as concepções de urbanismo criam e que facilitam ambientes versáteis e flexíveis, robustos e ambíguos o suficiente para permitir que essa qualidade cinética da cidade floresça. Será que a Cidade Cinética poderia ser a abordagem tática a ser considerada quando lidamos com o urbanismo do temporário, de altas densidades e intensidades? Apesar destas muitas dissociações em potencial, o que essa leitura da cidade realmente celebra são os processos dinâmico e pluralista que compõem a paisagem urbana indiana. Dentro desse urbanismo, as cidades Estática e Cinética necessariamente coexistem e se transformam em uma entidade integral, mesmo que momentaneamente, para criar as fronteiras de ajuste que suas existências simultâneas exigem.

Este artigo é baseado em um ensaio intitulado “Negotiating the Static and Kinetic Cities”, publicado em A. Huyssen, ed., Urban Imaginaries, Durham, NC, 2007.

Notas:

1 Ver A. King, Colonial Urban Development: Culture, Social Power and Environment, Londres, 1976.
2 Esta mudança sem precedentes na demografia não só transformou a composição social das cidades indianas como tem perpetuado uma paisagem incompreensível acusada de dualidades intensas, que são culturais, sociais e econômicas. Esta nova demografia consiste principalmente de migrantes rurais, que formam a população urbana pobre. Esta população traz consigo novas habilidades, valores sociais e atitudes culturais que não apenas determinam a capacidade destes de sobreviver em um ambiente urbano, mas que também são parte do processo de alteração da própria estrutura da cidade. A presença dos pobres urbanos torna explícita outra divisão crucial – entre aqueles que têm acesso à cidade formal e a infraestrutura que a acompanha e aqueles que não têm este acesso e, portanto, não possuem as comodidades básicas.
3 Ver também P. Shetty, Stories of Entrepreunering, Nova Déli, 2005.
4 Ver P. Chaterjee, “Are Indians becoming bourgeois at last?”, em Body. City. Siting contemporary culture in India, Berlim, 2003.
5 A ideia de que distintas zonas de produção e de segregação espacial se deslocaram para os serviços e para a produção, o que ocorre em áreas fragmentadas da rede da cidade, através do sistema de transporte eficiente que a cidade oferece.
6 Ver R. Sundaram, “Recycling Modernity: Pirate electronic cultures in India”, em Sarai Reader: The Cities of Everyday Life, Nova Déli, 2001.
7 Chaterjee, op. cit.
8 Os casamentos são um exemplo de como os ricos também estão envolvidos na feitura da Cidade Cinética. A falta de espaços formais para casamentos, como a saída cultural para a ostentação, resultou em espaços públicos abertos sendo colonizados temporariamente como espaços para o espetáculo de casamentos elaborados. Frequentemente, estruturas muito complexas para casamentos são montadas e desmontadas dentro de um período de tempo de 12 horas. Mais uma vez as margens do sistema urbano são momentaneamente expandidas.
9 Para exemplos de trabalhos/projetos que tentaram traduzir estas ideias, ver R. Mehrotra, “Planning for Conservation – Looking at Bombay’s Historic Fort Area, Future Anterior”, Journal of Historic Preservation, History, theory and Criticism, Vol.1 , nº 2, 2004.
11 Ver V. Venkatraman e S. Mirto, “Network/Design”, em Domus, nº 887, 2005.
12 Ver R. Khosla, The Loneliness of a Long Distant Future – Dilemmas of Contemporary Architecture, Nova Déli, 2002.